524 jovens já têm nome no SPC - consumo x carência emocional - entrevista
Entrevista - 524 jovens já têm nome no SPC
Consumo pode ser resultado de carências emocionais; pais precisam colocar limites e manter educação financeira A juventude é vista como a época das descobertas. Quando ela vai embora, os saudosistas costumam dizer que foi a “melhor fase da vida”. Porém, ser jovem tem seus custos. Literalmente.
Sem o planejamento adequado e embalados pela “primeira compra”, mais de 500 jovens bauruenses já estão com o “nome sujo” no comércio. E começar a vida adulta já endividado é visto de forma preocupante pelos economistas.
O levantamento, que foi realizado pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Bauru, apontou que 524 jovens – até os 19 anos – já estão inseridos no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Ao todo, as dívidas nas lojas da cidade chegam a aproximadamente R$ 160 mil.
O presidente da CDL, Sérgio Motta, explica que os dois tipos de crédito mais comuns no comércio são o carnê e o cheque pré-datado. Ele acredita que muitos jovens ainda não têm noções de planejamento e, por isso, acabam se endividando. “Eles não planejaram a vida em definitivo ainda. Muitos fazem planos de pagamento muito longos, que, com o tempo, ‘escapam’ do bolso”, afirma.
Para o economista Wagner Ismanhoto, a situação destas pessoas é preocupante. Não pelo número em si. “O comércio tem certo controle para conceder crédito aos jovens. Eles fazem algumas restrições. Então, saber que, mesmo assim, existem 500 jovens endividados é algo que preocupa”.
Ele afirma que, como o levantamento da CDL se refere especificamente ao comércio, o número de jovens “enrolados” é ainda maior. “Muitas dívidas são de cartões de crédito e de financiamentos. Como estas não entram neste número, é algo que serve ainda mais de alerta”.
Mas o que leva os jovens a gastarem mais do que ganham? Para a psicóloga Gretta Rodrigues Souza, fatores que vão desde a influência dos pais até carências emocionais influenciam no problema.
“Os pais que são endividados podem servir de exemplos errados para os filhos. Muitos dos jovens que têm cerca de 20 anos hoje têm pais que já viveram a abertura ao consumismo. E isto pode influenciar os filhos”, aponta.
A psicóloga pondera, entretanto, que o equilíbrio emocional do jovem é muito importante na questão. “Além do ‘espelho’ nos pais, o consumismo pode vir de uma carência emocional. Apesar de variar de caso a caso, há várias situações em que a pessoa compensa uma carência emocional comprando algo e acaba se endividando”.
Porém, ao contrário, quando há este equilíbrio emocional, até os “maus exemplos” dos pais podem ser usados como lições. “Muitos podem ver os erros dos pais para não fazer o mesmo”.
Desde a infância
Fora o pilar emocional, a consciência que esses jovens desenvolvem desde a infância é muito importante. O economista Wagner Ismanhoto explica que manter uma educação financeira é algo fundamental.
“A inadimplência nada mais é do que você ultrapassar suas possibilidades. As crianças precisam ter limites. Além de ter, precisam respeitar estes limites. E isto é algo que os pais devem ensinar em relação a tudo. Uma boa forma é fazê-los ‘se virar’ com uma mesada (leia mais abaixo)”, completa o economista.
Quando a criança cresce com esses limites, ela aprende a se planejar. “A fórmula para não se endividar é simples: os jovens precisam entender que não dá para fazer mágica. É preciso se programar e, inclusive, deixar uma margem de sobra para imprevistos”, aconselha o economista.
Elas também revelam que é possível planejar
As amigas Andreza Carolina Mariano, 16 anos, e Amanda Braga Rodrigues, 17, afirmam que nunca ficaram endividadas. Ou melhor, quase. “Teve uma vez que não deu para pagar e eu tive que pedir para minha mãe arcar com minha dívida”, conta Andreza
Mas, pouco tempo depois, ela jura que devolveu o “empréstimo” para a mãe. As duas adolescentes afirmam que é possível se planejar, mesmo com a pouca idade. E elas ainda enfrentam outra grande dificuldade: a “tentação” de serem aprendizes de uma empresa localizada ao lado do Bauru Shopping.
“Eu compro dois sapatos por mês. É o que eu mais gasto”, conta Andreza. Para as duas, o segredo de não se endividar é realmente seguir os conselhos dos pais. Amanda afirma que a mãe “pega no pé” quando o assunto é dinheiro.
“Ela faz eu me programar e guardar na poupança. Quando empresto dela, tenho que devolver. É sempre assim. Isso nos ajuda a pensar mais na hora de gastar”, conclui a jovem.
Depois dos 60
O levantamento da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Bauru também revelou a situação do outro extremo da pirâmide etária. De acordo com o levantamento, 3.041 pessoas acima dos 60 anos também se endividaram no comércio bauruense. No total, a dívida delas gira em torno de R$ 3,2 milhões.
O fato, porém, não é visto com estranheza pelo economista Wagner Ismanhoto. “Os idosos têm mais crédito no comércio. Há um senso de que são mais confiáveis. Por isso, distribui-se mais crédito e é normal ter mais dívidas”, explica.
Boa e velha mesada
Em tempos modernos e que se fala muito das noções de educação financeira, uma das mais tradicionais “instituições” ainda é de grande importância. Trata-se da mesada. Muito mais do que um dinheiro concedido aos filhos, é algo que ensina administração e limites.
“A mesada nunca vai cair em desuso. Quando as crianças recebem um valor e precisam se manter com ele, aprendem a administrar. Sabem o que podem comprar ou não. Na juventude e na vida adulta, levam esses conceitos e limites”, explica o economista Wagner Ismanhoto, que, inclusive, dá mesada aos seus filhos.
http://www.jcdigital.com.br/flip/Edicoes/15427%3D10-07-2012/04.PDF
Consumo pode ser resultado de carências emocionais; pais precisam colocar limites e manter educação financeira A juventude é vista como a época das descobertas. Quando ela vai embora, os saudosistas costumam dizer que foi a “melhor fase da vida”. Porém, ser jovem tem seus custos. Literalmente.
Sem o planejamento adequado e embalados pela “primeira compra”, mais de 500 jovens bauruenses já estão com o “nome sujo” no comércio. E começar a vida adulta já endividado é visto de forma preocupante pelos economistas.
O levantamento, que foi realizado pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Bauru, apontou que 524 jovens – até os 19 anos – já estão inseridos no Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Ao todo, as dívidas nas lojas da cidade chegam a aproximadamente R$ 160 mil.
O presidente da CDL, Sérgio Motta, explica que os dois tipos de crédito mais comuns no comércio são o carnê e o cheque pré-datado. Ele acredita que muitos jovens ainda não têm noções de planejamento e, por isso, acabam se endividando. “Eles não planejaram a vida em definitivo ainda. Muitos fazem planos de pagamento muito longos, que, com o tempo, ‘escapam’ do bolso”, afirma.
Para o economista Wagner Ismanhoto, a situação destas pessoas é preocupante. Não pelo número em si. “O comércio tem certo controle para conceder crédito aos jovens. Eles fazem algumas restrições. Então, saber que, mesmo assim, existem 500 jovens endividados é algo que preocupa”.
Ele afirma que, como o levantamento da CDL se refere especificamente ao comércio, o número de jovens “enrolados” é ainda maior. “Muitas dívidas são de cartões de crédito e de financiamentos. Como estas não entram neste número, é algo que serve ainda mais de alerta”.
Mas o que leva os jovens a gastarem mais do que ganham? Para a psicóloga Gretta Rodrigues Souza, fatores que vão desde a influência dos pais até carências emocionais influenciam no problema.
“Os pais que são endividados podem servir de exemplos errados para os filhos. Muitos dos jovens que têm cerca de 20 anos hoje têm pais que já viveram a abertura ao consumismo. E isto pode influenciar os filhos”, aponta.
A psicóloga pondera, entretanto, que o equilíbrio emocional do jovem é muito importante na questão. “Além do ‘espelho’ nos pais, o consumismo pode vir de uma carência emocional. Apesar de variar de caso a caso, há várias situações em que a pessoa compensa uma carência emocional comprando algo e acaba se endividando”.
Porém, ao contrário, quando há este equilíbrio emocional, até os “maus exemplos” dos pais podem ser usados como lições. “Muitos podem ver os erros dos pais para não fazer o mesmo”.
Desde a infância
Fora o pilar emocional, a consciência que esses jovens desenvolvem desde a infância é muito importante. O economista Wagner Ismanhoto explica que manter uma educação financeira é algo fundamental.
“A inadimplência nada mais é do que você ultrapassar suas possibilidades. As crianças precisam ter limites. Além de ter, precisam respeitar estes limites. E isto é algo que os pais devem ensinar em relação a tudo. Uma boa forma é fazê-los ‘se virar’ com uma mesada (leia mais abaixo)”, completa o economista.
Quando a criança cresce com esses limites, ela aprende a se planejar. “A fórmula para não se endividar é simples: os jovens precisam entender que não dá para fazer mágica. É preciso se programar e, inclusive, deixar uma margem de sobra para imprevistos”, aconselha o economista.
Elas também revelam que é possível planejar
As amigas Andreza Carolina Mariano, 16 anos, e Amanda Braga Rodrigues, 17, afirmam que nunca ficaram endividadas. Ou melhor, quase. “Teve uma vez que não deu para pagar e eu tive que pedir para minha mãe arcar com minha dívida”, conta Andreza
Mas, pouco tempo depois, ela jura que devolveu o “empréstimo” para a mãe. As duas adolescentes afirmam que é possível se planejar, mesmo com a pouca idade. E elas ainda enfrentam outra grande dificuldade: a “tentação” de serem aprendizes de uma empresa localizada ao lado do Bauru Shopping.
“Eu compro dois sapatos por mês. É o que eu mais gasto”, conta Andreza. Para as duas, o segredo de não se endividar é realmente seguir os conselhos dos pais. Amanda afirma que a mãe “pega no pé” quando o assunto é dinheiro.
“Ela faz eu me programar e guardar na poupança. Quando empresto dela, tenho que devolver. É sempre assim. Isso nos ajuda a pensar mais na hora de gastar”, conclui a jovem.
Depois dos 60
O levantamento da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Bauru também revelou a situação do outro extremo da pirâmide etária. De acordo com o levantamento, 3.041 pessoas acima dos 60 anos também se endividaram no comércio bauruense. No total, a dívida delas gira em torno de R$ 3,2 milhões.
O fato, porém, não é visto com estranheza pelo economista Wagner Ismanhoto. “Os idosos têm mais crédito no comércio. Há um senso de que são mais confiáveis. Por isso, distribui-se mais crédito e é normal ter mais dívidas”, explica.
Boa e velha mesada
Em tempos modernos e que se fala muito das noções de educação financeira, uma das mais tradicionais “instituições” ainda é de grande importância. Trata-se da mesada. Muito mais do que um dinheiro concedido aos filhos, é algo que ensina administração e limites.
“A mesada nunca vai cair em desuso. Quando as crianças recebem um valor e precisam se manter com ele, aprendem a administrar. Sabem o que podem comprar ou não. Na juventude e na vida adulta, levam esses conceitos e limites”, explica o economista Wagner Ismanhoto, que, inclusive, dá mesada aos seus filhos.
http://www.jcdigital.com.br/flip/Edicoes/15427%3D10-07-2012/04.PDF
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