Influência negativa afeta a infância - 2012 - entrevista
25/03/12
Influência negativa afeta a infância
Psicoterapeuta cita consumismo e banalização da violência como desafios na formação e educação das crianças
O corre-corre do dia a dia e a necessidade de se trabalhar fora faz com que os pais se afastem um pouco dos filhos. Alguns precisam enfrentar duas jornadas para conseguir oferecer uma vida mais confortável para os filhos. Educação, saúde e lazer de qualidade custam caro. Mas, ao mesmo tempo que se esforçam para ter tudo isso, os pais não podem descuidar da correta orientação dos filhos.
Eles recebem informações e estímulos de todos os cantos o tempo todo. É preciso saber filtrar isso. Se os pais não estiverem atentos na orientação dos filhos, eles podem receber influências que não são as mais recomendadas e aceitas pela família.
A psicoterapeuta Carmen Neme cita como exemplo a banalização da violência. Segundo ela, se antigamente havia um cuidado com o emprego da violência nos desenhos infantis, atualmente esse cuidado não é levado tão a sério. “Hoje, os meios de comunicação trazem muitos assassinatos e corre-se o risco de as crianças começarem a encarar isso como algo normal, quando a vida em sociedade exige que controlemos o nosso impulso. Então, quando os meios de comunicação mostram a violência como um comportamento corriqueiro, torna-se uma influência negativa”, argumenta.
Carmem cita também o incentivo ao consumismo como outra influência negativa. Assim, a criança, o adolescente e mesmo o jovem passam a não se contentar apenas com o essencial. Querem o que está na moda para se sentir parte integrante da sociedade. “Quando a criança não é atendida em seu pedido, ela vai achar que não é amada. E os adolescentes, jovens e adultos passam a se sentir credores da sociedade por não terem o que querem. Então, acham que podem assaltar (para conseguir o dinheiro ou objeto de desejo)”, aponta.
A psicoterapeuta também não poupa as novelas. “Em geral, elas mostram um jeito de ser mais carioca, mais livre e solto. Isso induz a um comportamento também mais liberal, ao contrário do que prega a maioria das famílias e das escolas”, observa. “O que quero dizer com isso é que crianças e adolescentes não têm discernimento sobre o que é certo ou errado. Se elas passam bastante tempo na frente da TV precisam de acompanhamento dos pais ou de um adulto”, orienta.
Segundo Carmen, a situação fica ainda mais complicada quando se percebe que professores e a escola como um todo não estão preparados para lidar com as mudanças que vêm ocorrendo no comportamento dos alunos. “Sem o preparo adequado, os professores deixaram de ser educadores e passaram a ser apenas ‘dadores’ de aula. Assim, (sem apoio em casa nem na escola) vejo crianças e adolescentes abandonados à própria sorte”, afirma.
Oportunidade única
A psicóloga Gretta Rodrigues Souza tem dois filhos: Arthur, de 1 ano, e Yara, de 5 anos. Certo dia, percebeu que seus filhos estavam crescendo e ela perdendo a chance de vivenciar cada momento da infância deles. “É um período da vida deles que não volta mais. Eu não teria outra oportunidade para fazer isso”, argumenta.
Foi quando ela decidiu dispensar a babá, reduzir a carga horária de trabalho e passar mais tempo com os filhos. “Eu queria brincar com eles, me sujar com eles, enfim, participar da infância deles”, diz. E assim ela fez. De manhã, fica com os filhos. À tarde, leva-os para a escola e ela vai para o consultório. No fim do expediente, passa na escola para pegar os filhos e volta para casa. “Antes, eu trabalhava de manhã, à tarde e à noite. Eu não estava sendo mãe nem esposa. Eu trabalhava muito para resolver os problemas dos meus clientes. Precisava resolver os meus também. Hoje, tenho mais tempo para os meus filhos e para mim”, comenta Gretta, que separa um dia da semana para cuidar dela.
“Como sou autônoma, tenho como escolher. Outras mulheres não podem fazer isso. Mas quando têm um tempinho para ficar com os filhos, não pode desperdiçá-lo”, afirma. No entanto, ela relata que não é exatamente isso que se passa em muitos casos.
Até por força da profissão, ela conta que fica sabendo de mães que em vez de usar o tempo livre para uma convivência gostosa com os filhos, preferem ficar no computador.
Para a psicóloga, reduzir a carga horária foi a melhor decisão que ela poderia ter tomado. “Eu curto demais meus filhos. Se eu não aproveitar agora, depois não dá mais.”
Escola junto com a família
Na ausência dos pais, há quem espere que a escola assuma o papel de educar crianças e adolescentes. Por sua vez, a escola diz que essa incumbência é dos pais. No caso da Four C, a responsabilidade é de ambos. Escola e família. Um complementa o outro.
A diretora da escola Sara Hughes lembra que, por muitos anos, basicamente, o método de educação se resumia aos filhos seguirem as ordens dos pais e ponto. Não tinha conversa. Era uma imposição. Eram raras as demonstrações de carinho. Da mesma forma, ver pais brincando com os filhos não era das cenas mais comuns de se ver.
“Por isso, temos de ser compreensivos com os pais de hoje”, comenta a diretora. “Como os pais podem saber dialogar com os filhos se eles não tiveram isso com os pais deles”, argumenta. No entanto, Sara aponta que é preciso achar o equilíbrio, pois passado o período da educação autoritária, o que se viu e se vê ainda hoje é a liberdade total. Os filhos ficam muito à vontade para fazer o que querem. Eles estabelecem as regras e os pais é que têm de obedecer.
“A liberdade de escolha das crianças tem de estar dentro daquilo que elas têm condições de escolher”, diz a coordenadora do ensino infantil da Four C, Juliana Storniolo. “E aqui nós trabalhamos muito essa questão da escolha.”
Para a diretora, tomar a decisão certa de “como” fazer é mais importante do que saber “o que” fazer. “Falamos muito da necessidade de se estabelecer uma rotina e de se criar limites. As crianças precisam saber claramente quais as consequências de suas decisões”, diz. “Entendemos que a educação é um todo. Nos colocamos como parceiros dos pais na educação dos filhos.”
Sara diz que procura explicar para os pais a importância de sentarem à mesa com calma para ajudar os filhos nas tarefas da escola. Mas não apenas na hora das tarefas. Segundo ela, não importa se o tempo com o filho é curto, desde que esse tempo seja aproveitado com qualidade.
É o que procuram fazer Bento Cintra e Cláudia Cintra pais de Victor, 11 anos, e Pedro, 9 anos, ambos alunos da Four C. Na hora de fazer as atividades escolares, nada de TV ligada. A concentração tem de ser total, inclusive dos pais.
Eles comentam que notaram que os filhos estão mais organizados em casa, possivelmente, graças às orientações introduzidas pela escola. Nada de deixar coisas espalhadas pela casa. Tudo volta para seu devido lugar quando não está mais em uso. Torneira aberta, só o tempo necessário. Nada de desperdício, inclusive na hora de separar o lixo. O que é reciclável, é separado.
“Acreditamos que toda essa conscientização ajuda a preparar um cidadão melhor”, diz Bento.
Adilson Camargo - jcnet
http://www.jcdigital.com.br/flip/Edicoes/15320%3D25-03-2012/05.PDF
Influência negativa afeta a infância
Psicoterapeuta cita consumismo e banalização da violência como desafios na formação e educação das crianças
O corre-corre do dia a dia e a necessidade de se trabalhar fora faz com que os pais se afastem um pouco dos filhos. Alguns precisam enfrentar duas jornadas para conseguir oferecer uma vida mais confortável para os filhos. Educação, saúde e lazer de qualidade custam caro. Mas, ao mesmo tempo que se esforçam para ter tudo isso, os pais não podem descuidar da correta orientação dos filhos.
Eles recebem informações e estímulos de todos os cantos o tempo todo. É preciso saber filtrar isso. Se os pais não estiverem atentos na orientação dos filhos, eles podem receber influências que não são as mais recomendadas e aceitas pela família.
A psicoterapeuta Carmen Neme cita como exemplo a banalização da violência. Segundo ela, se antigamente havia um cuidado com o emprego da violência nos desenhos infantis, atualmente esse cuidado não é levado tão a sério. “Hoje, os meios de comunicação trazem muitos assassinatos e corre-se o risco de as crianças começarem a encarar isso como algo normal, quando a vida em sociedade exige que controlemos o nosso impulso. Então, quando os meios de comunicação mostram a violência como um comportamento corriqueiro, torna-se uma influência negativa”, argumenta.
Carmem cita também o incentivo ao consumismo como outra influência negativa. Assim, a criança, o adolescente e mesmo o jovem passam a não se contentar apenas com o essencial. Querem o que está na moda para se sentir parte integrante da sociedade. “Quando a criança não é atendida em seu pedido, ela vai achar que não é amada. E os adolescentes, jovens e adultos passam a se sentir credores da sociedade por não terem o que querem. Então, acham que podem assaltar (para conseguir o dinheiro ou objeto de desejo)”, aponta.
A psicoterapeuta também não poupa as novelas. “Em geral, elas mostram um jeito de ser mais carioca, mais livre e solto. Isso induz a um comportamento também mais liberal, ao contrário do que prega a maioria das famílias e das escolas”, observa. “O que quero dizer com isso é que crianças e adolescentes não têm discernimento sobre o que é certo ou errado. Se elas passam bastante tempo na frente da TV precisam de acompanhamento dos pais ou de um adulto”, orienta.
Segundo Carmen, a situação fica ainda mais complicada quando se percebe que professores e a escola como um todo não estão preparados para lidar com as mudanças que vêm ocorrendo no comportamento dos alunos. “Sem o preparo adequado, os professores deixaram de ser educadores e passaram a ser apenas ‘dadores’ de aula. Assim, (sem apoio em casa nem na escola) vejo crianças e adolescentes abandonados à própria sorte”, afirma.
Oportunidade única
A psicóloga Gretta Rodrigues Souza tem dois filhos: Arthur, de 1 ano, e Yara, de 5 anos. Certo dia, percebeu que seus filhos estavam crescendo e ela perdendo a chance de vivenciar cada momento da infância deles. “É um período da vida deles que não volta mais. Eu não teria outra oportunidade para fazer isso”, argumenta.
Foi quando ela decidiu dispensar a babá, reduzir a carga horária de trabalho e passar mais tempo com os filhos. “Eu queria brincar com eles, me sujar com eles, enfim, participar da infância deles”, diz. E assim ela fez. De manhã, fica com os filhos. À tarde, leva-os para a escola e ela vai para o consultório. No fim do expediente, passa na escola para pegar os filhos e volta para casa. “Antes, eu trabalhava de manhã, à tarde e à noite. Eu não estava sendo mãe nem esposa. Eu trabalhava muito para resolver os problemas dos meus clientes. Precisava resolver os meus também. Hoje, tenho mais tempo para os meus filhos e para mim”, comenta Gretta, que separa um dia da semana para cuidar dela.
“Como sou autônoma, tenho como escolher. Outras mulheres não podem fazer isso. Mas quando têm um tempinho para ficar com os filhos, não pode desperdiçá-lo”, afirma. No entanto, ela relata que não é exatamente isso que se passa em muitos casos.
Até por força da profissão, ela conta que fica sabendo de mães que em vez de usar o tempo livre para uma convivência gostosa com os filhos, preferem ficar no computador.
Para a psicóloga, reduzir a carga horária foi a melhor decisão que ela poderia ter tomado. “Eu curto demais meus filhos. Se eu não aproveitar agora, depois não dá mais.”
Escola junto com a família
Na ausência dos pais, há quem espere que a escola assuma o papel de educar crianças e adolescentes. Por sua vez, a escola diz que essa incumbência é dos pais. No caso da Four C, a responsabilidade é de ambos. Escola e família. Um complementa o outro.
A diretora da escola Sara Hughes lembra que, por muitos anos, basicamente, o método de educação se resumia aos filhos seguirem as ordens dos pais e ponto. Não tinha conversa. Era uma imposição. Eram raras as demonstrações de carinho. Da mesma forma, ver pais brincando com os filhos não era das cenas mais comuns de se ver.
“Por isso, temos de ser compreensivos com os pais de hoje”, comenta a diretora. “Como os pais podem saber dialogar com os filhos se eles não tiveram isso com os pais deles”, argumenta. No entanto, Sara aponta que é preciso achar o equilíbrio, pois passado o período da educação autoritária, o que se viu e se vê ainda hoje é a liberdade total. Os filhos ficam muito à vontade para fazer o que querem. Eles estabelecem as regras e os pais é que têm de obedecer.
“A liberdade de escolha das crianças tem de estar dentro daquilo que elas têm condições de escolher”, diz a coordenadora do ensino infantil da Four C, Juliana Storniolo. “E aqui nós trabalhamos muito essa questão da escolha.”
Para a diretora, tomar a decisão certa de “como” fazer é mais importante do que saber “o que” fazer. “Falamos muito da necessidade de se estabelecer uma rotina e de se criar limites. As crianças precisam saber claramente quais as consequências de suas decisões”, diz. “Entendemos que a educação é um todo. Nos colocamos como parceiros dos pais na educação dos filhos.”
Sara diz que procura explicar para os pais a importância de sentarem à mesa com calma para ajudar os filhos nas tarefas da escola. Mas não apenas na hora das tarefas. Segundo ela, não importa se o tempo com o filho é curto, desde que esse tempo seja aproveitado com qualidade.
É o que procuram fazer Bento Cintra e Cláudia Cintra pais de Victor, 11 anos, e Pedro, 9 anos, ambos alunos da Four C. Na hora de fazer as atividades escolares, nada de TV ligada. A concentração tem de ser total, inclusive dos pais.
Eles comentam que notaram que os filhos estão mais organizados em casa, possivelmente, graças às orientações introduzidas pela escola. Nada de deixar coisas espalhadas pela casa. Tudo volta para seu devido lugar quando não está mais em uso. Torneira aberta, só o tempo necessário. Nada de desperdício, inclusive na hora de separar o lixo. O que é reciclável, é separado.
“Acreditamos que toda essa conscientização ajuda a preparar um cidadão melhor”, diz Bento.
Adilson Camargo - jcnet
http://www.jcdigital.com.br/flip/Edicoes/15320%3D25-03-2012/05.PDF
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