Transformações sociais e tecnológicas reduzem diálogo entre as pessoas - entrevista Jornal da cidade - fevereiro 2008

Transformações sociais e tecnológicas reduzem diálogo entre as pessoas

Sala de jantar: em vez de se reunirem em volta da mesa, cada membro da família apanha um alimento e sai de casa sem se despedir; todos estão com pressa, pois têm compromissos na rua.
Trabalho: os colegas chegam ao lugar onde terão de executar uma tarefa repetitiva durante oito horas seguidas e mal se olham; as únicas palavras que trocam são “Oi”, no início, e “Tchau”, no fim da jornada. Quarto de adolescente: uma mãe tenta puxar assunto com o filho, mas o garoto não consegue desgrudar os olhos do computador para lhe dar atenção.Certamente o leitor já deve ter se deparado com inúmeras situações semelhantes às descritas acima no dia-a-dia. Quem já não teve a sensação de falar com alguém e não ser ouvido? É provável que muita gente responderia que sim: afinal o diálogo, uma das principais marcas da espécie humana parece estar se tornando um bem cada vez mais escasso.É como se as transformações ocorridas na sociedade - em decorrência, sobretudo, da incorporação de novas tecnologia às nossas vidas - tivessem ajudado a afastar os seres humanos uns dos outros. “Falta tempo para os relacionamentos”, diz a psicóloga bauruense Marina Regina Corrêa Lopes Vanin. “Hoje, as pessoas têm seu horário controlado em função do trabalho. Além disso, muita gente se deixa levar por um uso excessivo das tecnologias (o computador e a televisão, principalmente), e não sobra tempo para diálogos e contatos mais próximos entre os indivíduos”, reforça. De acordo com ela, as tecnologias até suprem, de uma certa forma, as carências momentâneas das pessoas. “Só que quando conversam com alguém pela Internet, as pessoas costuma se proteger atrás de um personagem. Por isso, os vínculos estabelecidos nesse tipo de relação são, em sua maioria, falsos”, diz.Transformações na dinâmica da sociedade também estariam colaborando para deixar mais afastadas as pessoas umas das outras. “Hoje, vivemos em um mundo muito violento. Isso acaba gerando nos indivíduos uma espécie de paranóia com relação aos desconhecidos”, lembra Vanin. Para a psicóloga bauruense Gretta Rodrigues de Souza, diversos outros fatores ajudam a explicar a dificuldade de diálogo que afeta parte dos seres humanos. “Há uma exigência muito grande sobre as pessoas, no sentido de ‘você deve ser perfeito e não poderá, jamais, errar’”, afirma ela. Um certa dose de egoísmo por parte dos indivíduos ajudaria a tornar a situação ainda mais complicada. “Muitas vezes achamos que os outros são obrigados a adivinhar nossos sentimentos. Entre os casais isso é muito comum: cada um acha que as coisas na relação são claras e evidentes e, portanto, não precisam ser ditas e comentadas”, pondera Souza. Quem vive no isolamento pode estar sujeito a diversos problemas de ordem emocional. “Dependendo da situação, a pessoa pode ser levada a um quadro mais grave - uma depressão, por exemplo”, lembra Souza. “É lógico que isso vai depender da estrutura emocional de cada um”, pondera Vanin. Boa parte das pessoas que buscam auxílio junto ao Posto Samaritano de Bauru (são cerca de 70, por semana), credenciado pelo programa Centro de Valorização da Vida (CVV), quer, na verdade, apenas conversar. “Nos horários em que estou de plantão (no começo da noite), por exemplo, a maioria das ligações que recebo são de mulheres na faixa dos 40 ou 50 anos que moram sozinhas e não têm com quem conversar”, conta Márcia, que atua na entidade há cerca de seis anos.Voluntários do CVV, como ela, não são autorizados a relevar a própria identidade em entrevistas ou mesmo durante os atendimentos. Eles também não pedem dados pessoais para aqueles que buscam auxílio no serviço.

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